Deep Value no Brasil – A Novela

Dos Erros Idiotas ao Método – A Aceitação dos Riscos e o uso de “Proxies”

Sim, meu começo foi terrível.  Perdi uma Mercedes-Benz, como eu disse no post que está no começo do blog.  Por natureza, eu sou extremamente avesso a riscos.  Eu nunca conseguia acabar uma análise e sempre precisava saber mais sobre alguma coisa.  Isso fazia com que fosse muito difícil para mim fazer qualquer investimento com base no meu próprio estudo.  A despeito de sérios progressos no conhecimento técnico de finanças, quase sempre eu estava copiando alguém (veja a Filosofia Chinesa na página Quem é Baby Herman).

Eu tinha, e ainda tenho, o problema de fazer todo o trabalho sozinho.  É quase impossível reunir sozinho toda a informação que é necessária para se fazer uma boa análise se você tem um trabalho em período integral que consome muito tempo, como é meu caso.  Talvez, a única exceção a isso seja em uma situação de crise grave, quando o bom e velho net-net de Graham pode funcionar.

Mentiras Sinceras me Interessam e Riscos Conhecidos Também!

Como diz o Cazuza, mentiras sinceras me interessam. E isso tem relação com risco.

Em alguma medida, eu tive que aceitar meus próprios limites e abraçar o risco.  Mas como eu poderia fazer algo tão distante da minha natureza?  Eu tive que melhor explorar o tipo de risco que me assustava.  E eu aprendi que eu tenho medo de riscos desconhecidos.  Essa mudança sutil fez uma tremenda diferença.

E eu olhei para o passado para conhecer o risco.

Mas como nada garante que o futuro vá repetir o passado, muito pelo contrário, eu sei que eu estou me enganando um pouco.  Mas é sincero!  E mentiras sinceras me interessam!

Conhecendo Riscos

A aceitação do risco veio pelo conhecimento técnico.  Hoje, minhas principais influências são:

1) Tobias E. Carlisle – Deep Value.   Esse livro foi praticamente uma revelação (eu sei que isso é tremendamente piegas, mas é verdade).  Obviamente que o autor me ensinou um método, o “aquirer´s multiple”, mas muito mais que isso, as razões por trás dele.  De certa forma, é a sistematização das razões que fazem com que você possa confiar em uma série de proxies para investir.  O livro é excelente, recomendo com convicção.  Uma versão mais curta do Deep Value é o Acquirer´s Multiple.  Outra coisa, o autor tem um site excelente: acquirersmultiple.com.

2) James P. O’Shaughnessy – What Works on Wall Street.  Outro livro excelente, cheio de ideias e um conceito muito claro sobre o seu “base case”.  Você tem que ter um “base case”.  Se você tem um, seu risco não é desconhecido.

3) Joel Greenblatt – The Little Book that Beats the Market.  De alguma forma, esse livro é o “pai” do Deep Value.  Esse livro é incrivelmente claro (e divertido de ler!).  Esse livro também me ensinou a lidar com “proxies” e alguns conceitos simples e óbvios (mas, às vezes, muito difíceis de acreditar!) como a razão de valor e preço serem diferentes.

4) Wes Gray e Jack Vogel – Quantitative Momentum.  A melhor explicação que eu já li até hoje sobre value e momentum.  Eles oferecem uma pesquisa profunda para o público em geral.  Além disso, eles têm um dos melhores sites de materiais sobre investimentos que eu já vi: alphaarchitect.com.  Os autores realmente levam a sério o mote de “empowering investors through education”.

5) Pim Van Vliet e Jan De Koning – High Returns from Low Risk. Outro livro muito claro (e divertido de ler).  Eu troquei alguns e-mails com Jan de Koning.  Jan, muito obrigado!  Você me deu algumas explicações muito claras e práticas.

Eu tenho que mencionar alguns gestores brasileiros também! Ler as cartas da Orbe (agora Trópico) foi muito importante. Obrigado, Fernando Luiz! Henrique Bredda tem uma abordagem vida real que também tem que ser aplaudida.

Todos os autores acima são apenas uma parte dos livros que li e das pesquisas que fiz.  De alguma maneira todos me permitiram achar um caminho em que eu posso confiar (e que tem sido lucrativo até agora).

Hoje eu ainda posso perder dinheiro, mas se perder, vou perder com método! E isso faz toda a diferença…

Vida Longa ao Passado

Decidi ver se o Deep Value funcionaria no Brasil.  Em razão do tamanho e idade do mercado brasileiro, diversas adaptações tiveram que ser feitas.  O tamanho das companhias, a inclusão das utilities, o conceito de liquidez e algumas outras.  De qualquer forma, pela primeira vez eu tinha uma abordagem real – e sólida – para investir.  Em outros posts eu posso desenvolver a abordagem teórica, mas eu realmente recomendo a leitura do Deep Value.  É difícil ter uma explicação sobre isso melhor que o próprio livro.

Um ponto sobre o qual eu precisava decidir era a data de início do meu estudo.  Eu uso a Economatica (uma base de dados profissional, muito usada no Brasil), que tem dados a partir de 1986.  Por outro lado, o Brasil sofreu fortemente com a hiperinflação até 1994.  Assim, eu decidi começar os estudos a partir de janeiro de 1995, o primeiro ano inteiro desde a adoção do Plano Real.  Eu sei que o período é curto se comparado àquele usado em estudos sobre o mercado americano, mas eu não consegui achar uma solução melhor.

Abaixo está um gráfico comparando o retorno da uma das carteiras teóricas e o Bovespa, desde 20 de maio de 1995 até 14 de março de 2019:

DVABR significa Deep Value, estratégia “A”, Brasil.  Nesta estratégia a carteira tem 20 ações, mantidas por um ano.  Ao final desse período uma nova carteira com 20 ações é formada.  Na formação das carteiras cada ação representa 5% do total.  Não há exclusão de microcaps, mas para ter certeza de que cada ação é realmente negociada, coloquei como requisito a presença em pelo menos 80% dos dias de negociação e algum volume mínimo de negociação (ao redor de R$60.000 por dia, em valores de 2019).  Eu sei que esses números não fazem sentido para um investidor institucional, mas eles fazem sentido para mim.  No final das contas, eu sou pequeno.  Eu estou trabalhando em alguns estudos para ver a performance da carteira para as small, mid e large caps.

Abaixo está a performance teórica da minha carteira real desde 18 de outubro de 2016.  Como essa performance pode ser teórica e real ao mesmo tempo?  O gráfico pressupõe o reinvestimento dos dividendos, mas essa carteira é muito pequena para que eu consiga efetivamente fazer isso.  Minha performance real foi de 175,54% entre 18 de outubro de 2016 até 14 de março de 2019 (resultado que supera o Bovespa).  Outro ponto sobre a minha performance real.  Hoje, essa carteira é parte de uma carteira maior.  Assim, eu perdi o controle do reinvestimento dos dividendos que ela gera.  Eu devo ter uma performance real ligeiramente melhor que isso.  De qualquer forma, quanto mais eu investir, mais conseguirei fazer com que o retorno real se aproxime do retorno teórico.

Próximos Passos e Ajuda!

Eu acredito que conhecimento superior leva a melhores resultados (a sorte é sempre bem-vinda).  No que diz respeito a investimentos, isso significa melhores conhecimentos sobre seus investimentos.  Mas eu não consegui fazer isso sozinho até agora.  Assim, eu estou em busca de ajuda.  Enquanto isso, eu sigo usando a minha versão tropicalizada do Deep Value no Brasil.  Eu tinha que começar de algum jeito.  É preciso ter dinheiro de verdade no jogo.  Ser um voyeur é broxante! O mundo real é necessário!

De qualquer forma, eu conheço meus limites.  Alguns próximos passos chegam a ser óbvios.  Aqui vão eles: (i) testar mais o Deep Value no Brasil e (ii) usar o Deep Value como forma de screening (ao invés desse quase-Quant acidental que eu virei).  Explico melhor abaixo:

Testar o Deep Value.  Eu corro o risco de estar sendo engando pelo acaso.  Eu duvido que eu tenha testado o método, e algumas de suas variações, no Brasil tantas vezes quanto é necessário para se ter uma relevância estatística.  Apesar dessa falha gravíssima, eu sigo usando o Deep Value no Brasil com dinheiro de verdade porque eu acredito nos fundamentos práticos e teóricos do value investing e o método foi testado em outros mercados.  De qualquer forma, testes adicionais dessa versão do Deep Value no Brasil são extremamente bem-vindos.

Investidor de Segundo Grau.  Usar proxies (aproximações) é parte da vida.  Eu nunca vou ter informação completa.  Para ser mais preciso, eu nunca vou chegar perto de ter informação completa.  Mas, se o Deep Value funciona, é porque alguém está fazendo o trabalho duro.  Eu quero ser esse alguém.

O uso mecânico do Deep Value não olha detalhes das demonstrações financeiras, por exemplo.  Se eu tivesse mais braços, seria possível selecionar ações com o método, melhor analisá-las, e só depois dessa segunda camada de análise fazer as escolhas finais.

Nós poderíamos testar com dados do passado essa versão “refinada” do Deep Value, para ver se realmente teríamos resultados superiores (sim, isso seria um trabalho hercúleo).

Se alguém estiver interessado em trabalhar junto comigo, por favor me mande uma mensagem.  Será um prazer dividir o trabalho com alguém.  Outras ideias são bem-vindas também!

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